"Uma distração é uma
alerta que diz 'oriente sua atenção para cá agora'; e isso pode ser
perigoso"
Apesar de vivermos imersos em
informações, nossa capacidade de transformar esse volume absurdo em
conhecimento é limitada tanto pelo tempo disponível quanto pela capacidade
cognitiva. O problema se torna maior quando não notamos que o acesso a uma
infinidade de informações se tornou uma forma de distração. O feed infinito do
Facebook, dezenas de conversas em grupos do Whatsapp, milhares de e-mails não
lidos – tudo isso sem contar as informações necessárias para estudo ou
trabalho. Essa dispersão tem efeitos inclusive na saúde, podendo desencadear
crises de burnout, ansiedade, insônia, dentre outros problemas.
Diante dessa crise, há uma
preocupação crescente com o foco – ou atenção. "Muito recentemente, a
ciência da atenção floresceu para muito além da vigilância", afirma o
psicólogo Daniel Goleman em seu livro Foco. "Essa ciência diz que nossa
capacidade de atenção determina o nível de competência com que realizamos
determinada tarefa. Se ela é ruim, nos saímos mal. Se é poderosa, podemos nos
sobressair", explica. Ou seja, para realizar coisas, concretizar ideias,
atingir objetivos e atingir um grau de excelência em determinada atividade, é
essencial direcionar o foco àquilo que se pretende fazer e eliminar o máximo
possível de distrações – boa parte delas está relacionada à internet e redes
sociais.
O guru do marketing Seth Godin
defende que os dois bens mais escassos atualmente são confiança e atenção. O
primeiro por ser frágil. O segundo porque, apesar de vivermos em um sistema
econômico onde a atenção é cada vez mais disputada e valiosa, ela não tem
escala industrial. Só podemos fazer uma atividade por vez, seja checar e-mails,
estudar ou ser alvo de campanhas publicitárias. Diversas ferramentas online e
aplicativos são feitos para serem fáceis de usar e, dessa maneira, criar um
certo grau de dependência. Assistir a episódios consecutivos de uma série ou
conferir as atualizações nas redes sociais não nos torna mais felizes ou
capazes, mas consomem muita atenção e tempo.
"Uma distração é uma
alerta que diz 'oriente sua atenção para cá agora'; e isso pode ser
perigoso", diz David Rock, autor de Your brain at work. O cérebro reage
automaticamente ao estímulo e, a essa altura, já perdemos o foco.
Portanto, tão necessário
quanto nos dedicarmos ao que deve ser feito é tirar da nossa vista qualquer
elemento que possa dispersar a atenção investida em determinada tarefa, além de
desenvolver bons hábitos. É importante lembrar que foco não depende apenas de
força de vontade, mas é uma habilidade que deve ser treinada continuamente; à
medida em que você pratica, consegue dominar melhor.
A capacidade de manter o foco
é a principal habilidade do século 21, aquela que vai garantir o sucesso
pessoal e profissional. Confira abaixo três dicas para melhorar sua atenção e
manter o foco nas atividades que realmente importam. As dicas são do
Entrepreneur.com.
1.
Fique longe do celular durante os primeiros 20 minutos do dia.
A primeira e última atividade
que muita gente faz no dia é conferir o smartphone – uma janela para inúmeras
fontes de distração. Já foi comprovado que a luz emitida pelos aparelhos
prejudica a qualidade do sono, o que já é péssimo para quem quer um pouco de
qualidade de vida. Ligar o aparelho assim que acordar – até mesmo antes de
levantar da cama – não está entre os melhores hábitos para iniciar o dia. O
ideal é dedicar ao menos 20 minutos para uma atividade contemplativa, banal, ou
apenas meditação. Pode ser algo tão simples como abrir a janela, ouvir os sons
do dia, sentir os aromas, preparar o café e tomar um banho.
O especialista em meditação e
concentração Andy Puddicombe, em uma palestra TED, questiona sobre a última vez
em que passamos apenas 10 minutos sem fazer absolutamente nada. Ele sugere que
a meditação é uma maneira de observar o pensamento e as emoções, o que
contribui para o relaxamento, foco e, de quebra, autoconhecimento. "Tudo o
que você precisa são 10 minutos por dia dar um passo para trás, familiarizar-se
com o presente para experienciar uma sensação maior de foco, calma e clareza na
sua vida", revela. A maioria das pessoas irá começar a pensar nos
problemas, compromissos e necessidades a partir do segundo minuto. Portanto,
meditação requer prática para que se chegue à perfeição.
"Quando sua mente divagar
– e você perceber que isso aconteceu – traga-a de volta ao seu ponto focal e
mantenha sua atenção lá. E quando sua mente volta a divagar, faça a mesma
coisa. E de novo. E de novo. E de novo", recomenda Daniel Goleman no livro
já citado.
Os primeiros minutos do dia
também são importantes para pensar no que foi feito no dia anterior, considerar
novas ideias e planos e projetar o que deve ser feito ao longo do dia. Ao se
conectar assim que acorda, você deixa tudo isso de lado e dá mais importância
às atualizações e novidades que dificilmente farão alguma diferença na sua
vida. E, uma vez sugado para esse mundo, você vai demorar bem mais do que
preciosos 20 minutos para sair dele.
2.
Um dia sem internet
Esse passo pode ser encarado
como uma evolução do anterior. Cumulativamente àqueles 20 minutos diários,
reserve um dia inteiro para ficar longe do seu computador ou smartphone – ou
qualquer outra maneira de acessar a internet. Pode fazer qualquer coisa – tocar
violão, ler um livro, passear, enfim... o importante é se desligar
completamente do mundo online durante essas 24 horas.
O objetivo é dar um tempo para
sua mente se revigorar – assim como nosso corpo não precisa de exercícios
constantes para desenvolver a musculatura, o cérebro precisa de uma folga para
relaxar. Como disse Obi-Wan ao então jovem padawan Anakin Skywalker, "seu
foco determina sua realidade". Nossos sentimentos e personalidade são,
necessariamente, condicionados pelo nosso foco. Se você decidir permanecer
conectado todos os dias, como espera ter boas ideias ou enxergar as coisas por
outra perspectiva?
O escritor russo Tolstói, um
gênio da contemplação, sempre exortou para a necessidade de se desligar do
mundo das informações e observar o mundo real. "Se, então, alguém me
perguntasse qual o mais importante conselho que eu poderia dar, simplesmente
diria: em nome de Deus, pare por um momento, suspenda seu trabalho, olhe ao seu
redor", escreveu em uma de suas cartas. Ele nunca tocou num smartphone ou
passou horas vendo TV, mas seu conselho vale para todas as gerações atuais e
vindouras.
"Extrair valor das
informações é uma atividade frequentemente interrompida quando se está
ocupado", afirma Cal Newport, autor de Deep Work. A ação descrita consiste
em transformar informação em conhecimento. Nossa mente faz essa mágica quando
não está ocupada demais com a internet ou outras distrações. Daí a importância
de garantir um dia de folga para ela.
3.
Evite internet antes ou depois do trabalho
Passamos entre seis e oito
horas do nosso dia trabalhando. E mais algumas no trânsito. Durante esse
período, é necessário, para muitos profissionais, permanecer conectado. A
internet também é um instrumento de trabalho. Tirando as horas em que
precisamos dormir, é frustrante gastar o restante do dia na internet – em geral
com atividades inúteis. Aproveite o tempo em que você não precisa estar
conectado para desenvolver uma nova ocupação ou hobby, dar atenção à família,
arrumar a casa ou caminhar.
Chegar em casa após um longo
dia de trabalho e se atirar no sofá com o celular na mão sem ao menos trocar de
roupa não é algo prazeroso, útil ou importante. Uma vez conectado – mesmo que
seja só para checar novos e-mails e notificações – você dificilmente vai sair
desse buraco negro por conta própria. Então para quê entrar nele, afinal?
A capacidade individual de
foco é tão forte quanto o comprometimento em treiná-lo. Dificilmente uma pessoa
acostumada a péssimos hábitos conseguirá desenvolver atividades que requerem concentração
e reflexão – um dos motivos pelos quais os diagnósticos de TDAH, inclusive em
crianças, vêm crescendo a um ritmo alarmante. Mas esses três exercícios são
basilares para melhorar o foco e, consequentemente, a produtividade e a
qualidade de vida(Via).